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[Sábado, Março 04, 2006]

Confeti Negro
Nunca gostara de festas e agora suspeitava do porque.
Desde muito cedo, se lembrava de seus pais lhe dizendo que era melhor ficar em casa. Só lhe haviam feito uma festa de aniversário, quando completou um ano e nunca mais. Não gostavam de falar daquela festa e nem tinham fotos da data. Alias, segundo suas contas, haviam abandonado a sua cidade natal, um dia depois da festa. Recomeçaram a vida em outro lugar e nunca lhe fizeram uma festa. Não entendera o motivo disso, até esse momento. Uns amigos lhe conveceram de que era muito triste passar o carnaval em casa só. Disseram-lhe que, antes de sair dizendo que não gostava de bailes de carnaval, deveria experimentar ir a um deles. Garantiram-lhe que se não gostasse, voltariam para casa e fariam algo que lhe agradasse mais. A custa de muita conversa, convenceram-lhe a ir. Arrumaram fantasias, convites, condução. No dia da festa, apareceram cheios de alegria, sorrindo de orelha a orelha. Não saberia distinguir qual estava mais feliz. Talvez, se não tivesse ido...
Chegaram ao salão. Todas aquelas vozes, as musicas, tanta alegria. Poderia até tocar a felicidade apenas estendendo as mãos. Seus amigos pulavam em meio a multidão extaseados, não puderam ouvir quando disse que gostaria de sair daquele lugar. Puxou um deles e gritou:
- "Eu quero sair daqui!"
- "Só mais um minuto..."
Foi a unica resposta que obteve. Dita em meio aquela alegria, num tom de suplica de quem não quer abandonar sua diversão. Até tentou esperar que aqueles 60 segundos se passassem, mas ali parado no meio do salão, não pode se conter. Fechou os olhos e cerrou os punhos, desejando que aquela marchinha de carnaval não chegasse aos seus ouvidos. Foi nesse momento que começou a ouvir a Ode a Alegria, sua musica preferida. Abriu lentamente os olhos. Não havia mais ninguém ao seu redor. Apenas seus proprios pés tocava aquele chão molhado e vermelho. Pra onde todos foram? De onde viera tanto sangue? Intuitivamente, sabia as respostas pra esses questões. Caminhou placido até um cadeira e sentou-se sem remorso. A sua volta negros pedaços de confete caiam lentamente.
Talvez por isso, não gostasse de festas...

por Lamú * 5:18 PM
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