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[Sábado, Fevereiro 18, 2006]

Never Ends II...
Abriu os olhos. Não conseguia acreditar que aquele dia existia mesmo. Entretanto podia ver claramente, tudo que odiara bem em sua frente. Os sons, os odores, as cores... Tudo, realmente, estava lá. Fechou os olhos novamente e jogou outro tanto de água no rosto. Enxugou-se e saiu.
Abandonou seu prédio para percorrer o mesmo caminho de todo dia. Um sol escandante lhe esperava do lado de fora. Podia sentir o suor escorrendo-lhe pelo rosto e a pele avermelhando-se pelas queimaduras. Os cabelos desgrenhados, depois de fazer aquele trajeto tantas vezes, desistira de pentea-los.
Arfava e sentia um cansaço terrivel quando chegou ao seu destino. Um edificio de concreto e vidro, sem coração. Lá dentro, haviam vários deles. Pareciam humanos para quem olhasse de fora, rapidamente. Mas sabia muito bem que não eram. Nos ultimos dias, havia prestado muita atenção a eles. Sempre debochando, entregues as mesmas tarefas repetivas, nunca se cansam. Um dia, teve a impressão de ver um deles cortando-se na guilhotina de papéis, mas ele não gritou. Não fez nada, apenas continuou ali cortando papéis. Naquele dia ainda não tinha percebido, convenceu-se que havia sido apenas sua imaginação lhe pregando uma peça. Mesmo assim, não pode deixar de notar que eles não sentiam dor ao esbarrar em algum movel, ou quando algo lhes atingiu. Uma vez, deu um pisão violento no pé de um deles só pra ver como ele reagiria. E nada. Não foi surpresa, já esperava por isso. Desde aquele dia, não conseguia mais se concentrar em outra coisa além deles.
Ao vigia-los descobriu que eles também a observavam. Todos os dias, a cada minuto, sempre havia um deles observando-a. Isso a enlouquecia. Queria ficar só, mesmo que apenas um minuto. Levantou-se e foi até a cozinha, nunca tinha visto um deles comer, por isso imaginou que não haveria nenhum deles lá. Não havia café então resolveu beber um pouco de água. Ouviu os passos atras de si. Era um deles, agora parado perto da mesa, olhando para ela.
- SAIA DAQUI!!!
Gritou com toda a sua força. Tudo que obteve como resposta foi um sorriso arrogante. Irritou-se. Quebrou a garrafa de água, enfiou um caco no pescoço dele e o empurrou para o corredor. Por alguns instantes, ele ficou parado imovel enquanto todos se aproximavam para ver o que havia acontecido. Desesperou-se, pensou consigo mesma que tinha enlouquecido e atacado um homem inocente, que agora jazia a sua frente. Começou a chorar, ainda com os cacos nas mãos. Entre seus soluços pode ouvir o som deles rindo. Como podiam sorrir? Ela acabara de matar um deles!!! Como podiam... Como??? Olhou para frente, ele estava em pé. Só então percebeu, não havia sangue nos cacos em suas mãos. Nem em sua roupa ou nele, embora pudesse ver o corte em seu pescoço. Ele ajeitou sua gravata e sorrindo começou a caminhar em sua direção, acompanhado pelos outros. Tentou ameaça-los com os cacos, mas isso só os fez gargalhar mais ainda. Hesitou por alguns segundos, mas não teve duvidas. Com os cacos que ainda tinha nas mãos, cortou os pulsos. Primeiro o esquerdo, depois o direito. Sentiu o sangue escorrendo e a dor dos cortes, no entanto não pode deixar de notar a felicidade que tomou conta de si. Não era um deles. Começou a enfraquecer, e a perder os sentidos. Num minuto tudo era escuridão e a unica coisa que ainda a ligava aquele mundo era o som das risadas deles, cada vez mais distante. Logo não ouviria mais nada e estaria eternamente livre deles.
De repente, tudo desapareceu. Abriu os olhos. Não conseguia acreditar que aquele dia existia mesmo. Entretanto podia ver claramente, tudo que odiara bem em sua frente. Os sons, os odores, as cores... Tudo, realmente, estava lá. Fechou os olhos novamente e jogou outro tanto de água no rosto. Enxugou-se e saiu.

por Lamú * 4:52 PM
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