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[Domingo, Março 19, 2006]
Nada...
Abriu os olhos muito lentamente, tentando se acostumar com a claridade daquela sala. Não tinha certeza de quanto tempo estivera ali dormindo. Nem poderia precisar como havia chegado até lá.
Lembrava de estar numa sala esperando por alguem que... O que era mesmo que aquela pessoa faria por ela? Quem estava era a pessoa que estava esperando? Será que ela tinha aparecido? Ou será que sua espera fora em vão? Não se lembrava, mas de certa forma, tinha a certeza de ter encontrado com alguém.
Olhou em volta, a sala completamente branca sem moveis, apenas a enorme cama em que estava deitada. Suas roupas, dobradas e limpas a esperavam na na beirada da mesma cama. Começou a vesti-las com naturalidade como se fosse normal acordar num lugar desconhecido, sem se lembrar de nada. Mesmo esse pensamento não a preocupou. Levantou-se e calçou os sapatos, instintivamente, sabia que eles estavam ali...
Nem se preocupou em procurar por uma porta, sabia que ela não existia. Ao inves disso, dirigiu-se até um canto do quarto e puxou uma pequena alavanca abrindo um compartimento onde havia comida. tomou seu café da manha e volou para a cama. Sentou-se. Embaixo do travesseiro sabia que encontraria suas revistas preferidas. Com toda a calma começou a ler, sem notar como tudo era estranho.
Não se preocupava com nada. Sabia que ficaria ali um longo tempo, mas também tinha certeza de que nada faltaria...
por Lamú * 11:24 AM
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[Domingo, Março 12, 2006]
Era uma vez...
Era uma vez, num país muito distante, mas conhecido por todos, um rei muito tolo que acreditava apenas na riqueza e no conforto. Para ele, bastava uma mesa farta, um cofre abarrotado e moveis macios para que a felicidade se abatesse sobre todos os que o cercavam. Um dia, o tolo rei foi agraciado com o amor de uma jovem e bela princesa e a transformou em sua rainha. Houve grande felicidade, todo o reino comemorava as bodas de seu rei. A nova rainha, já exuberante em sua beleza, era realçada por seu encantador sorriso de alegria. Tudo parecia perfeito a todos e qualquer um que passasse pelo castelo, certamente, sem o menor esforço, sentenciaria que os dois seriam "felizes para sempre".
Mas o tempo o implacavelmente passou, ignorando os desejos de todos e mostrando que apenas ele é eterno. Nem alegria, nem tristeza ou amor. A medida que os dias se passavam, a rainha percebia a futilidade dos desejos de seu marido e entristecia mais e mais. Sua tristeza crescia a olhos vistos e nada parecia capaz de alegra-la. O rei tentava de todas as formas que conhecia trazer a felicidade ao coração de sua doce rainha. Comprava-lhe os mais vistosos vestidos, as mais caras jóias, ordenava aos suditos que preparassem os mais suntuosos jantares e organizava festas que dariam inveja ao próprio Deus. No entanto, todos os seus esforços eram inuteis. A olhos vistos, a atormentada rainha definhava e parecia pior a cada vestido, jóia, jantar ou festa, como se esses lhe roubassem pouco a pouco o que restava de sua alegria. Saia cada vez menos do quarto, até o dia em que não pode levantar-se da cama. O rei alarmado com a noticia, irrompeu o quarto em lágrimas e ficou ao lado da cama observando o sono de sua amada rainha. Em meio a todo o luxo e conforto, em meio a todos os nobres e criados que tentavam consola-lo, sussurrou:
- "Eu trocaria tudo só por seu sorriso..."
Era a primeira vez que o rei proferira palavras tão embargadas de sinceridade. E naquele momento, para espanto de todos, a rainha sorriu... O rei passou a visita-la todos os dias e de mãos vazias, falava-lhe sobre como fora seu dia, das idéias tolas que haviam lhe passado pela cabeça, contava as estórias que ouvira e, às vezes, até inventava algumas apenas para ver, mesmo que por um pequeno instante, sua rainha sorrir.
E assim, sem festa ou alarde, sem joias ou jantares, sem vestidos ou luxo, o tolo rei e sua atormentada rainha, finalmente, foram felizes para sempre.
por Lamú * 3:06 PM
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[Sábado, Março 04, 2006]
Confeti Negro
Nunca gostara de festas e agora suspeitava do porque.
Desde muito cedo, se lembrava de seus pais lhe dizendo que era melhor ficar em casa. Só lhe haviam feito uma festa de aniversário, quando completou um ano e nunca mais. Não gostavam de falar daquela festa e nem tinham fotos da data. Alias, segundo suas contas, haviam abandonado a sua cidade natal, um dia depois da festa. Recomeçaram a vida em outro lugar e nunca lhe fizeram uma festa. Não entendera o motivo disso, até esse momento. Uns amigos lhe conveceram de que era muito triste passar o carnaval em casa só. Disseram-lhe que, antes de sair dizendo que não gostava de bailes de carnaval, deveria experimentar ir a um deles. Garantiram-lhe que se não gostasse, voltariam para casa e fariam algo que lhe agradasse mais. A custa de muita conversa, convenceram-lhe a ir. Arrumaram fantasias, convites, condução. No dia da festa, apareceram cheios de alegria, sorrindo de orelha a orelha. Não saberia distinguir qual estava mais feliz. Talvez, se não tivesse ido...
Chegaram ao salão. Todas aquelas vozes, as musicas, tanta alegria. Poderia até tocar a felicidade apenas estendendo as mãos. Seus amigos pulavam em meio a multidão extaseados, não puderam ouvir quando disse que gostaria de sair daquele lugar. Puxou um deles e gritou:
- "Eu quero sair daqui!"
- "Só mais um minuto..."
Foi a unica resposta que obteve. Dita em meio aquela alegria, num tom de suplica de quem não quer abandonar sua diversão. Até tentou esperar que aqueles 60 segundos se passassem, mas ali parado no meio do salão, não pode se conter. Fechou os olhos e cerrou os punhos, desejando que aquela marchinha de carnaval não chegasse aos seus ouvidos. Foi nesse momento que começou a ouvir a Ode a Alegria, sua musica preferida. Abriu lentamente os olhos. Não havia mais ninguém ao seu redor. Apenas seus proprios pés tocava aquele chão molhado e vermelho. Pra onde todos foram? De onde viera tanto sangue? Intuitivamente, sabia as respostas pra esses questões. Caminhou placido até um cadeira e sentou-se sem remorso. A sua volta negros pedaços de confete caiam lentamente.
Talvez por isso, não gostasse de festas...
por Lamú * 5:18 PM
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[Sábado, Fevereiro 18, 2006]
Never Ends II...
Abriu os olhos. Não conseguia acreditar que aquele dia existia mesmo. Entretanto podia ver claramente, tudo que odiara bem em sua frente. Os sons, os odores, as cores... Tudo, realmente, estava lá. Fechou os olhos novamente e jogou outro tanto de água no rosto. Enxugou-se e saiu.
Abandonou seu prédio para percorrer o mesmo caminho de todo dia. Um sol escandante lhe esperava do lado de fora. Podia sentir o suor escorrendo-lhe pelo rosto e a pele avermelhando-se pelas queimaduras. Os cabelos desgrenhados, depois de fazer aquele trajeto tantas vezes, desistira de pentea-los.
Arfava e sentia um cansaço terrivel quando chegou ao seu destino. Um edificio de concreto e vidro, sem coração. Lá dentro, haviam vários deles. Pareciam humanos para quem olhasse de fora, rapidamente. Mas sabia muito bem que não eram. Nos ultimos dias, havia prestado muita atenção a eles. Sempre debochando, entregues as mesmas tarefas repetivas, nunca se cansam. Um dia, teve a impressão de ver um deles cortando-se na guilhotina de papéis, mas ele não gritou. Não fez nada, apenas continuou ali cortando papéis. Naquele dia ainda não tinha percebido, convenceu-se que havia sido apenas sua imaginação lhe pregando uma peça. Mesmo assim, não pode deixar de notar que eles não sentiam dor ao esbarrar em algum movel, ou quando algo lhes atingiu. Uma vez, deu um pisão violento no pé de um deles só pra ver como ele reagiria. E nada. Não foi surpresa, já esperava por isso. Desde aquele dia, não conseguia mais se concentrar em outra coisa além deles.
Ao vigia-los descobriu que eles também a observavam. Todos os dias, a cada minuto, sempre havia um deles observando-a. Isso a enlouquecia. Queria ficar só, mesmo que apenas um minuto. Levantou-se e foi até a cozinha, nunca tinha visto um deles comer, por isso imaginou que não haveria nenhum deles lá. Não havia café então resolveu beber um pouco de água. Ouviu os passos atras de si. Era um deles, agora parado perto da mesa, olhando para ela.
- SAIA DAQUI!!!
Gritou com toda a sua força. Tudo que obteve como resposta foi um sorriso arrogante. Irritou-se. Quebrou a garrafa de água, enfiou um caco no pescoço dele e o empurrou para o corredor. Por alguns instantes, ele ficou parado imovel enquanto todos se aproximavam para ver o que havia acontecido. Desesperou-se, pensou consigo mesma que tinha enlouquecido e atacado um homem inocente, que agora jazia a sua frente. Começou a chorar, ainda com os cacos nas mãos. Entre seus soluços pode ouvir o som deles rindo. Como podiam sorrir? Ela acabara de matar um deles!!! Como podiam... Como??? Olhou para frente, ele estava em pé. Só então percebeu, não havia sangue nos cacos em suas mãos. Nem em sua roupa ou nele, embora pudesse ver o corte em seu pescoço. Ele ajeitou sua gravata e sorrindo começou a caminhar em sua direção, acompanhado pelos outros. Tentou ameaça-los com os cacos, mas isso só os fez gargalhar mais ainda. Hesitou por alguns segundos, mas não teve duvidas. Com os cacos que ainda tinha nas mãos, cortou os pulsos. Primeiro o esquerdo, depois o direito. Sentiu o sangue escorrendo e a dor dos cortes, no entanto não pode deixar de notar a felicidade que tomou conta de si. Não era um deles. Começou a enfraquecer, e a perder os sentidos. Num minuto tudo era escuridão e a unica coisa que ainda a ligava aquele mundo era o som das risadas deles, cada vez mais distante. Logo não ouviria mais nada e estaria eternamente livre deles.
De repente, tudo desapareceu. Abriu os olhos. Não conseguia acreditar que aquele dia existia mesmo. Entretanto podia ver claramente, tudo que odiara bem em sua frente. Os sons, os odores, as cores... Tudo, realmente, estava lá. Fechou os olhos novamente e jogou outro tanto de água no rosto. Enxugou-se e saiu.
por Lamú * 4:52 PM
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[Sábado, Fevereiro 11, 2006]
Fuga...
Corria. A muito tempo fazia isso. Não queria magoar ninguém, mas sabia que não era capaz de se controlar muito bem nessas horas. Assim, sempre que a magoase tomava seu coração por lar, corria sem dizer uma palavra. Qualquer som que emitisse, qualquer gesto seu seria para magoar aquela pessoa. Conhecia muito bem seus defeitos e sabia que esse era um deles. Tinha um jeito especial com as palavras e a vingança, por alguns instantes, lhe fazia sentir muito bem. As pessoas costumavam até a brincar sobre isso, mas se sentia imensamente mau depois de ferir alguém. Mesmo que aquela pessoa merecesse. Mesmo que não gostasse dela. Preferiria ser alguem capaz de se controlar melhor. De qualquer forma, já estava melhor agora. Enquanto estivesse correndo, sabia que não seria capaz de falar nada para magoar ninguém. E assim, mais um passo e outro.
por Lamú * 4:30 PM
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[Sábado, Fevereiro 04, 2006]
Shooting Star
A cabeça recostada na parede, dos olhos levemente avermelhados, duas timidas lágrimas escorriam de modo lento e calmo. Ali, observando aquele céu noturno, sentia, finalmente, um pouco de paz. Uma paz triste lhe preenchia a alma enquanto comtemplava aquelas poucas estrelas que haviam se dignado a aparecer naquela noite escura. Algumas delas, provavelmente, já estavam mortas há anos, no entanto, mesmo assim brilhavam lindamente. Pensou quão diferente sua vida era de uma estrela. Certamente, não brilharia depois de sua morte. Sequer sentia-se brilhando agora. Se fosse uma estrela, seria uma daquelas que são ofuscadas por outras maiores, uma daquelas que ninguém nota, nem mesmo os astronomos. Talvez, pudesse ser uma estrela cadente, já que parecia que seu destino era mesmo esse: cair. Passaria a eternidade vagando só, na escuridão do espaço, sempre caindo. Lembrou-se que algumas pessoas, ao verem uma estrela cadente, alegram-se e fazem pedidos. Aquilo, surpreendeu sua mente, por um instante, desejou realmente ser a estrela cadente que vaga só, na escuridão do espaço, sem amigos, sem lugar no universo. Sentiu que seria imensamente feliz, se, durante uma de suas quedas, olhasse para um planeta e visse um sorriso, enquanto um desejo lhe era confessado. Se fosse uma estrela cadente faria de tudo para realizar qualquer que fosse o desejo. Traria felicidade a vida de todos. E se não fosse possivel, lhes daria esperença. Se menos isso lhe fosse negado, ao menos, sorriria de volta ao seu amo e prometeria jamais revelar a ninguém sua confidencia. Por que o que se pede a uma estrela cadente é, quase sempre, um desejo intimo e secreto que gostariamos de ver realizado, mas nunca revelado.
Mais algumas lágrimas rolaram, à estrela cadente que lhe aparecera, confidenciou seu mais novo desejo. Não queria mais nada, não ansiava riqueza, amor ou alegria. Sua decisão havia sido tomada, para nunca voltar atras. Queria ser, para todo o sempre, uma estrela cadente.
por Lamú * 3:53 PM
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[Sábado, Janeiro 28, 2006]
Como manda a tradição desse blog, o primeiro post é pra contar a tal lenda dos Coelhos na Lua.
"Haviam 3 coelhos, um rico, um "classe média" e um muito pobre. Todos eles se diziam apaixonados pela lua. O primeiro coelho convidou a lua para jantar, encomendou as melhores coisas: lagostas, caviar, o melhor champagne..e a lua se fartou com toda a comida! O segundo coelho, enciumado, fez o que pôde: uma bela feijoada, galinhada com os melhores temperos e também convidou a lua para comer em sua casa... O terceiro coelhinho também quis convidar sua amada para comer...entretanto, quando a lua chegou para o jantar só havia um caldeirão de água fervente... Nesse momento, o coelho saltou dentro do caldeirão oferecendo a única coisa que ele poderia dar para alimentá-la: a si mesmo! (pelo visto a lua aceitou a oferta...) E é por isso que quem está apaixonado (como o coelho da história) enxerga o coelho na lua..."
Dramático...

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